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Crise pode gerar “guerra dos portos”

Paulo Skaf, da Fiesp, avalia os efeitos no BR

A crise europeia que se alastrou em países como Grécia, Irlanda e Portugal começa a afetar o Brasil, primeiramente, com a disparada do dólar. No início do ano, a moeda americana iniciou cotada em R$ 1,65, porém, com a negociação dos títulos da Grécia, este valor chegou a ultrapassar a casa de R$ 1,80.

Diversos setores da economia brasileira vivem a apreensão gerada pela instabilidade nos principais mercados mundiais. Um deles é o automobilístico que já prevê queda de 3,4% no volume exportado até dezembro, segundo informações da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores).

Tendo isso em vista, o Portal Webtranspo entrevistou, com exclusividade, o presidente da Fiesp (Federação da Indústria do Estado de São Paulo), Paulo Skaf, sobre os anseios e preocupações do setor, principalmente, em um ano em que as medidas governamentais são para arrefecer a economia. Segundo ele, a turbulência global trará ao País problemas para a indústria da transformação e gerará a “guerra dos portos”, que é o favorecimento da entrada de produtos importados.

Como a crise pode afetar o brasil?

Ainda é difícil avaliar o tamanho do impacto, mas acredito que será limitado e muito menor do que se viu em 2008, quando a economia brasileira parou, principalmente por conta da redução do crédito bancário. Como essa crise não parece, por enquanto, ser bancária, há menor probabilidade disso ocorrer novamente. Mas sentiremos alguns impactos: a atividade econômica deve desacelerar além do que já vem ocorrendo. E reduzindo-se o crescimento econômico, reduz-se também o nível de geração de empregos.

Diante do quadro de desaquecimento da economia, se torna cada vez mais urgente que se adote uma postura agressiva de redução dos juros da economia, que ainda são um dos maiores do mundo*.

A alta do dólar beneficia a indústria nacional, que atualmente reclama muito da taxa cambial?

O câmbio é um dos fatores, mas precisamos resolver também outros problemas que são entraves para o desenvolvimento da indústria nacional como, por exemplo, elevada taxa de juros, que está intimamente relacionada ao aumento do câmbio e à dificuldade de financiamento. Também precisamos acelerar o ritmo de investimentos em infraestrutura, porque o país precisa de mais e melhores rodovias, portos e ferrovias para o escoamento de sua produção. Além disso, é fundamental solucionar o problema da alta carga tributária, que onera a produção e as exportações, e acabar com os incentivos espúrios à importação e à guerra fiscal.

Em âmbito mais geral, quais os setores que poderiam ser mais afetados pelo brasil?

A indústria de transformação de maneira geral é a mais afetada. A crise econômica, que se arrasta desde 2008, levou os países ao que se chamou de "Guerra Cambial", ou seja, tornar a taxa de câmbio favorável aos seus respectivos setores produtivos. O Brasil, ao contrário, permitiu uma forte apreciação cambial, derivada em grande parte, pelo diferencial de juros em relação a esses países. Somando-se o câmbio desfavorável a outros fatores, já mencionados, mas que valem a pena serem repetidos como: carga tributária elevada, deficiência de infraestrutura, juros proibitivos, energia elétrica cara e incentivos à importação via "Guerra dos Portos" (favorecimento da entrada de produtos importados); cria-se um cenário competitivo perverso ao setor produtivo nacional.

A crise vem em um momento pior para o país, já que o brasil passa por um momento de arrefecimento econômico?

O Brasil possui as condições necessárias para enfrentar a crise com tranquilidade, como em 2008, quando a turbulência nos pareceu muito mais agressiva. Mesmo assim, nós conseguimos superá-la com mais eficiência do que as economias centrais. Portanto, acredita-se que agora a recuperação será menos dolorosa. No entanto, diante do quadro de desaceleração da economia, é preciso que tomemos medidas urgentes para dinamizar nossa economia como adotar uma postura vigorosa de corte da taxa de juros SELIC, que nos dá o incômodo título de campeões mundiais de juros altos, o que resulta em um custo proibitivo do financiamento e na redução dos investimentos.

As obras de infraestrutura podem ser deixadas de lado?

De maneira alguma, muito pelo contrário. Um dos maiores gargalos da produtividade brasileira é a infraestrutura cara e ruim do país. Nós precisamos de uma infraestrutura de qualidade para escoar nossa produção tanto para o mercado interno quanto para o externo.

Um dos exemplos que traz a questão da infraestrutura para o centro do debate sobre o desenvolvimento brasileiro é o preço da energia. Apesar de termos o privilégio de contar com uma matriz de geração predominantemente hidráulica (77%), com custos de produção muito baixos, isso não se reflete na realidade do consumidor brasileiro, que paga uma das mais caras tarifas do mundo. Para tentar reverter essa situação, a Fiesp lançou a campanha “Energia a preço justo”, que visa a redução das tarifas de energia por meio da realização de novos leilões para as concessões que vencem a partir de 2015. Reduzir o preço da energia permitirá que as famílias economizem na conta de luz, que os produtos fiquem mais baratos, que as pessoas comprem mais. Isso movimenta toda a economia, gera empregos, enfim, todo mundo ganha.

Já foi traçado como seria o pior e melhor cenário brasileiro frente à crise?

Independente do cenário internacional, o Brasil precisa definir onde quer chegar, porque todos os demais países sabem onde querem chegar e defendem muito bem seus interesses. Nós precisamos fazer o mesmo. Portanto, é necessário definir estratégias de atuação que gerem incentivos à inovação, ao desenvolvimento de um setor produtivo competitivo internacionalmente, tirando-nos desta trajetória que está sendo imposta: fornecedores de primários e compradores de manufaturados.

*A entrevista foi concedida antes de o Governo anunciar a redução da taxa básica de juros, a Selic, em 0,5%. Em nota oficial em seu site, a Fiesp avaliou que a medida foi tímida e que o mais adequado seria uma redução brusca nos juros para continuar fomentando o crescimento do País, sem que o controle de preços seja abandonado.


 

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